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As stablecoins deixaram de ser um instrumento restrito ao mercado cripto e passaram a fazer parte da rotina financeira na América Latina. Em países marcados por inflação alta, desvalorização cambial e acesso limitado a serviços bancários, elas vêm sendo usadas para receber dinheiro do exterior, guardar valor e fazer pagamentos internacionais com menos custo e mais agilidade.
O que começou como uma alternativa para proteger dinheiro da volatilidade das moedas locais agora tem impacto direto no dia a dia de famílias que dependem de remessas e de pequenas empresas que operam com clientes fora do país.
“Em 2026, o sistema financeiro global passa por uma transformação profunda, à medida que as stablecoins deixam de ser apenas a ‘infraestrutura invisível’ das exchanges cripto para se tornarem um pilar do comércio tradicional. Essa evolução é mais evidente na forma como empresas lidam com operações de alto valor, com as stablecoins substituindo rapidamente métodos tradicionais em pagamentos B2B e liquidações internacionais. A frente desse movimento estão gigantes como Visa e Mastercard, cuja integração profunda de tokens digitais em suas redes forneceu a base necessária para a adoção em escala global”, afirma Fabián Delgado, gerente de desenvolvimento de negócios da Bitfinex na América Latina.
De acordo com a corretora, esses são os três movimentos que ajudam a explicar por que as stablecoins estão ganhando espaço nas remessas da região.
1. A necessidade acelerou a adoção
Na América Latina, o avanço das stablecoins tem menos a ver com especulação e mais com necessidade. Em países como Argentina e Bolívia, onde a inflação corrói o poder de compra e há restrições cambiais, guardar dinheiro em moeda local pode significar perda rápida de valor.
Nesse cenário, moedas digitais atreladas ao dólar, como o USDT, passaram a ser usadas para receber remessas, poupar e até pagar fornecedores. Dados da Chainalysis indicam que, entre 2022 e 2025, a América Latina movimentou quase US$ 1,5 trilhão em criptoativos. Só o Brasil recebeu US$ 318,8 bilhões em valor em criptomoedas, cerca de um terço de toda a atividade da região, com forte presença do USDT.
No Brasil, o uso vai além de investidores. Pequenos negócios e profissionais que prestam serviços ao exterior utilizam stablecoins para receber pagamentos internacionais e depois decidir quando converter para reais. Isso evita perdas imediatas com a variação do câmbio e reduz custos de transferências tradicionais.
Empresas do setor têm apostado em facilitar esse processo, conectando plataformas cripto a meios de pagamento locais e tornando mais simples a compra e a venda de stablecoins com moeda nacional. A disputa, segundo players do mercado, está menos focada em promoções e mais em oferecer operações rápidas, estáveis e com taxas menores, especialmente em fluxos de remessas dos quais muitas famílias dependem.
2. Proteção contra inflação e previsibilidade no caixa
Para quem depende de dinheiro enviado por parentes que vivem no exterior, cada dia pode fazer diferença. Em economias com inflação elevada, manter recursos parados em conta corrente ou poupança significa perder poder de compra.
As stablecoins oferecem uma alternativa: o valor pode ser mantido em uma moeda digital pareada ao dólar até o momento em que a pessoa decidir converter ou gastar. Isso dá mais controle sobre o orçamento e reduz a perda causada pela desvalorização da moeda local entre o recebimento e o uso do dinheiro.
O impacto também é relevante para freelancers e pequenas empresas. Profissionais que trabalham para clientes fora do país conseguem manter parte da receita em stablecoins, protegendo o capital de giro de oscilações bruscas do câmbio. Com isso, ganham mais previsibilidade para precificar serviços e organizar despesas.
Ao mesmo tempo, a infraestrutura dessas redes evoluiu. Hoje, é possível fazer transferências e pagar taxas dentro das próprias plataformas usando a mesma moeda estável, o que reduz a exposição a ativos mais voláteis e torna as operações mais simples para o usuário comum.
3. Remessas mais rápidas e menos burocráticas
A América Latina concentra alguns dos maiores corredores de remessas do mundo. Tradicionalmente, enviar dinheiro de um país para outro envolve tarifas elevadas, prazos de liquidação que podem levar dias e taxas de câmbio pouco transparentes.
Com stablecoins, o envio pode ser feito em minutos, com custos menores e maior clareza sobre o valor que será recebido. Em países como Brasil e México, já existem integrações entre emissores de stablecoins e sistemas locais de pagamento instantâneo, como Pix e SPEI. Na prática, isso permite que empresas e usuários convertam valores digitais em moeda local de forma mais direta, sem depender de transferências bancárias internacionais tradicionais.
Para trabalhadores que vivem fora e enviam dinheiro para suas famílias, a diferença é concreta: o recurso chega mais rápido e com menos desconto em taxas. Para quem recebe, há liberdade para decidir quando converter para a moeda local ou manter o valor em dólar digital. Já comerciantes e pequenos empreendedores conseguem acessar recursos com mais agilidade, sem passar por processos bancários demorados a cada transação.
Em 2026, as stablecoins ainda convivem com desafios regulatórios e de supervisão. Mas, na prática, já fazem parte da rotina financeira de milhões de latino-americanos e principalmente em países onde estabilidade e previsibilidade continuam sendo bens escassos.
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ALESSANDRA GARCINDO DAYRELL
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