Os professores do Colégio Unifemm, em Sete Lagoas, divulgaram uma carta aberta à comunidade informando o início de uma greve motivada por meses de atrasos salariais e pela falta de respostas da instituição. No documento, os educadores afirmam que a paralisação foi uma decisão difícil, mas considerada inevitável diante da situação financeira enfrentada pela categoria.
Segundo os docentes, os salários estão em atraso desde janeiro de 2025. Eles relatam que, dos mais de 13 salários pendentes, apenas parte dos vencimentos referentes ao período entre junho e novembro foi quitada de forma parcelada. Também denunciam a ausência de depósitos do FGTS, o não recolhimento do INSS descontado em folha, além do não pagamento de férias e do 13º salário.
Na carta, os professores afirmam que muitos profissionais estão endividados, emocionalmente abalados e recorrendo a empréstimos para garantir despesas básicas. Eles destacam que, até o momento, grande parte da categoria não recebeu qualquer pagamento referente ao trabalho realizado em 2026.
Os educadores também relatam que tentaram negociar com a direção da escola antes da paralisação. De acordo com o documento, a diretora teria solicitado sucessivos prazos para solucionar o problema, mas, segundo os professores, nenhuma proposta concreta foi apresentada até o início da greve.
Além das questões financeiras, a carta faz críticas à postura da gestão da instituição. Os docentes alegam que a direção teria divulgado informações equivocadas sobre o movimento grevista, pressionado alunos a retirarem manifestações de apoio e deixado de responder aos contatos feitos pelos professores sobre a paralisação.
Ainda conforme o documento, os professores afirmam que a nova gestão informou não possuir uma proposta imediata para resolver a situação e teria pedido que os profissionais retornassem às atividades "por amor" à profissão. Para os educadores, o compromisso com o ensino nunca deixou de existir, mas a valorização da categoria passa pelo cumprimento dos direitos trabalhistas.
Na parte final da carta, os docentes reforçam que desejam retornar às salas de aula o quanto antes, desde que tenham seus direitos respeitados. Eles pedem apoio da comunidade de Sete Lagoas e afirmam que o movimento não representa um ataque à instituição, mas um pedido de justiça e valorização da educação.
Posicionamento
Até o momento, o documento divulgado pelos professores não apresenta um posicionamento oficial da direção do Colégio Unifemm sobre as denúncias. O espaço permanece aberto para manifestação da instituição.
Veja a carta na íntegra:
Às nossas alunas, aos nossos alunos, seus familiares e a toda a população de Sete Lagoas
Para nós, ser professor é mais do que uma profissão: é um compromisso, uma entrega. Sustentamos a certeza de que nossa prática fundamenta todas as demais. Somos nós quem pavimentamos os caminhos que a sociedade percorre e, com orgulho, carregamos essa responsabilidade.
Não escolhemos a docência por status ou por uma remuneração invejável, isso nunca foi segredo para ninguém. Escolhemos porque acreditamos no poder transformador da educação e porque temos o privilégio de poder levá-la ao maior número possível de pessoas.
Nossa trajetória no Colégio Unifemm sempre foi guiada por essa crença. Somos professores de diferentes eixos temáticos e ciclos que, há longos meses, dedicamos diariamente o nosso melhor: compartilhamos nosso capital intelectual, debruçamo-nos sobre as necessidades de cada aluno e entregamos o que temos de mais precioso: o nosso tempo e o nosso saber, tudo isso sem o pagamento devido dos nossos salários.
Hoje, acumulamos mais de 13 salários atrasados (de janeiro de 2025 a junho de 2026), dos quais foram pagos, parceladamente e em pequenas porcentagens, apenas os meses de junho a novembro, sem contar os depósitos do FGTS e do INSS (este último descontado em folha e nunca recolhido), além das férias e do 13º salário, totalmente inadimplentes.
Muitos de nós estão endividados, emocionalmente esgotados, recorrendo a empréstimos com juros abusivos para garantir o básico da subsistência. Ainda estamos recebendo, parceladamente, o salário referente a novembro de 2025, e apenas 50% dele. Do trabalho de 2026, até agora, a grande maioria de nós nada recebeu.
Por isso, há uma pergunta que não quer calar: quem trabalharia nesses termos? Nós acreditamos que ninguém.
No início do ano, ainda com esperança, chamamos nossa diretora para tratar da situação e manifestamos o interesse em realizar uma paralisação. Ela nos prometeu apoio e pediu alguns dias para resolver. Passaram--se os dias, cobramos, ela pediu mais prazo. E assim fomos conduzidos até julho, sem uma resposta concreta.
Pior: a mesma diretora que disse compreender nossa luta e estar ao nosso lado agora propaga uma imagem distorcida do nosso movimento. Mentiu sobre o horário do comunicado da greve, pressionou alunos a retirarem seu apoio e exigiu que apagassem publicações em nossa defesa. Nunca buscou o diálogo com sua própria equipe e sequer respondeu aos e-mails referentes à greve.
Hoje, 14 de julho, uma semana após sermos oficialmente informados sobre a paralisação, a instituição ainda permanece inerte diante da angústia de alunos, responsáveis e professores. Passiva, vê os alunos, movidos pela falta de respostas, pedirem transferência do colégio, e não toma nenhuma atitude.
E, como se já não bastasse todo esse descaso, a nova gestão, apoiada pela pró-reitora interina, achou apropriado afirmar categoricamente que não havia proposta alguma para os professores e que precisava de mais tempo para encontrar alguma saída. Teve, ainda, a coragem de verbalizar que esperava que voltássemos por amor, que colocássemos o nosso coração na frente da nossa decisão.
Amor nunca nos faltou ao exercer a nossa função. O que falta, há muito tempo, é pagamento e valorização de uma classe que já é tão desrespeitada.
Ao reclamarmos e nos posicionarmos contra esse desrespeito, fomos tratados como adversários da instituição. E isso nos assusta profundamente. Se criticar o descumprimento dos nossos direitos é interpretado como lutar contra a Unifemm, é porque a gestão naturalizou o desrespeito ao trabalhador e o incorporou à sua própria cultura.
Fica claro que não houve, até agora, uma palavra de alento ou sequer um pronunciamento de esperança. Simplesmente assistem a tudo com apatia, como se isso fosse mais que esperado.
E repetimos: a quem esse silêncio beneficia? Por que a Unifemm insiste em não agir com a celeridade que a situação exige? Os alunos seguirão, de fato, desassistidos?
O que mais queremos é retomar, com dignidade, a nossa rotina. Voltar para a sala de aula, o lugar que escolhemos e amamos.
Esta foi, sem dúvida, a decisão mais difícil que já tomamos como professores. Mas o amor que temos pelos nossos alunos não pode continuar servindo como moeda de troca para o atropelo dos nossos direitos.
Merecemos respeito. Merecemos reconhecimento. E isso começa com o pagamento correto dos nossos salários e com o cuidado mínimo com a nossa reputação e com a nossa história.
Que a comunidade setelagoana nos ouça. Que veja em nossa luta não um ataque, mas um grito por justiça, por todos que acreditam que a educação se constrói com valorização, e não com silêncio e abandono.
Com respeito e esperança, Professoras e professores do Colégio Unifemm