Ao Oia Notícias, economista, empresário e ex prefeito de Paraopeba avalia os impactos do encerramento da histórica fábrica da Cedro e apresenta caminhos para a construção de uma nova fase de desenvolvimento para Caetanópolis.
O encerramento das atividades da unidade histórica da Companhia de Fiação e Tecidos Cedro, em Caetanópolis, marca o fim de um ciclo iniciado há mais de 150 anos. A fábrica foi decisiva para a formação econômica, urbana, social e cultural do município, além de ocupar um lugar de destaque na história da industrialização de Minas Gerais.
Fundada em 12 de agosto de 1872 pelos irmãos Mascarenhas, a Fábrica do Cedro tornou Caetanópolis conhecida como berço da indústria têxtil mineira. Agora, diante da paralisação da produção e da possibilidade de transferência de aproximadamente 104 trabalhadores para Sete Lagoas, a cidade precisa discutir alternativas para reduzir os impactos econômicos e construir novas oportunidades.
Para compreender os desafios desse momento, o Oia Notícias conversou com o economista, empresário e ex prefeito de Paraopeba, Juca Bahia, que defende a criação de um plano de transição econômica, a preservação do patrimônio histórico e uma articulação regional mais forte.
Oia Notícias: O que o encerramento das atividades da Cedro representa para Caetanópolis?
Juca Bahia: Representa o encerramento de um dos capítulos mais importantes da história de Caetanópolis e da industrialização mineira. Durante mais de 150 anos, a fábrica não foi apenas um local de trabalho. Ela participou da formação da cidade, movimentou o comércio, contribuiu para o crescimento urbano, incentivou o esporte e ajudou a construir a identidade da população. O silêncio dos teares tem um significado econômico, histórico e também emocional.
Oia Notícias: A possibilidade de transferência de trabalhadores para Sete Lagoas diminui os impactos desse encerramento?
Juca Bahia: A possibilidade de transferência é importante porque pode preservar parte dos empregos e da renda das famílias. Isso precisa ser reconhecido. Entretanto, o impacto para Caetanópolis vai além dos postos de trabalho. A cidade perde circulação de renda, consumo no comércio, demanda por serviços e uma atividade econômica que esteve presente por várias gerações. Por isso, precisamos olhar para a situação de maneira mais ampla.
Oia Notícias: Qual deve ser a primeira providência das lideranças locais e regionais?
Juca Bahia: Precisamos reunir Prefeitura, Câmara Municipal, Governo de Minas, representantes da empresa, trabalhadores, entidades empresariais, instituições de ensino e órgãos de desenvolvimento. O objetivo deve ser a construção de um plano de transição econômica para Caetanópolis. Não basta lamentar o encerramento. É necessário definir responsabilidades, estabelecer prioridades e buscar soluções concretas.
Oia Notícias: O que deveria fazer parte desse plano?
Juca Bahia: O plano precisa trabalhar em várias frentes. A primeira é o apoio aos trabalhadores e às famílias afetadas. A segunda é a qualificação profissional, preparando a população para novas atividades econômicas. A terceira é a atração de empresas e investimentos. Também precisamos incentivar os pequenos negócios, o empreendedorismo, a economia criativa e o turismo histórico. Caetanópolis precisa diversificar sua economia para não permanecer dependente de uma única atividade.
Oia Notícias: Existe possibilidade de atrair novos empreendimentos para o município?
Juca Bahia: Sem dúvida. Caetanópolis possui localização estratégica, está próxima de Sete Lagoas, tem acesso facilitado a importantes rodovias, conta com mão de obra experiente e possui uma identidade industrial muito forte. Mas os investimentos não chegam apenas pela vontade. É preciso apresentar projetos, organizar áreas adequadas, oferecer segurança jurídica, simplificar procedimentos e estabelecer uma agenda permanente de diálogo com empresários e governos.
Oia Notícias: Qual poderá ser o futuro do complexo industrial da Cedro?
Juca Bahia: Esse patrimônio não pode ser abandonado nem tratado apenas como uma lembrança do passado. O complexo possui enorme valor histórico, cultural e econômico. Com planejamento, poderá abrigar atividades ligadas ao turismo, à educação, à inovação, à economia criativa, ao empreendedorismo e à capacitação profissional. O Museu Têxtil Décio Mascarenhas também precisa ser fortalecido como espaço de preservação da memória e de atração de visitantes.
Oia Notícias: Como preservar essa história sem impedir a modernização da cidade?
Juca Bahia: Preservar não significa deixar tudo parado. Significa dar uma nova função ao patrimônio, respeitando sua história. Muitas cidades transformaram antigos complexos industriais em centros culturais, espaços de formação, ambientes de inovação e polos turísticos. Caetanópolis pode fazer o mesmo, desde que exista um projeto responsável, viável e construído com a participação da sociedade.
Oia Notícias: O senhor tem defendido uma articulação regional mais forte. Como isso poderia ajudar Caetanópolis?
Juca Bahia: Nenhuma cidade deveria enfrentar sozinha um desafio dessa dimensão. Caetanópolis faz parte de uma região com municípios economicamente interligados. Uma articulação regional forte pode aproximar as cidades dos governos estadual e federal, apresentar projetos conjuntos, buscar recursos, atrair empresas e defender investimentos estruturantes. Quando a região trabalha unida, ela ganha força política e capacidade de negociação.
Oia Notícias: A falta de representação regional influencia situações como essa?
Juca Bahia: Uma representação comprometida com a região pode acompanhar os problemas antes que eles se agravem, abrir portas, cobrar providências e articular soluções. Não existe solução mágica, mas existe trabalho, presença e capacidade de articulação. A região precisa ter voz ativa nos espaços onde são tomadas as decisões e distribuídos os investimentos.
Oia Notícias: Caetanópolis pode transformar esse momento de dificuldade em uma oportunidade?
Juca Bahia: Pode e deve. A cidade possui história, identidade, localização e uma população trabalhadora. O encerramento da fábrica é uma perda muito grande, mas não pode significar o encerramento das perspectivas de desenvolvimento. Este é o momento de reconhecer a realidade, proteger as pessoas afetadas e construir uma nova agenda econômica.
Oia Notícias: Que mensagem o senhor deixa para a população de Caetanópolis?
Juca Bahia: Caetanópolis ajudou a escrever a história industrial de Minas Gerais e merece construir um futuro à altura dessa trajetória. Depois de mais de 150 anos de contribuição para o desenvolvimento do estado, a cidade merece mais do que homenagens ao passado. Merece planejamento, investimentos, oportunidades e união. O som dos teares pode ter silenciado, mas a capacidade de trabalho e de reconstrução do povo de Caetanópolis continua viva.