Inteligência acima da média pode esconder sintomas de TDAH e atrasar diagnóstico, alertam especialistas
Ser altamente inteligente não impede uma pessoa de desenvolver Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Pelo contrário, em muitos casos, a capacidade intelectual elevada acaba mascarando os sintomas, fazendo com que o diagnóstico seja adiado por anos ou até décadas. O alerta é do psicólogo clínico e PhD em Neurociência, Dr. Bruno Salles, que destaca que pessoas com TDAH e alto desempenho intelectual frequentemente enfrentam desafios invisíveis para quem está ao redor.
Segundo o especialista, um dos sinais mais comuns é a dificuldade em realizar tarefas simples do cotidiano, mesmo quando a pessoa demonstra grande capacidade para resolver problemas complexos. Enquanto consegue encontrar soluções criativas no ambiente de trabalho ou nos estudos, ela pode procrastinar atividades básicas, como responder e-mails, pagar contas ou organizar a rotina.
Outro fator recorrente é o esforço excessivo para manter um bom desempenho. Pessoas inteligentes com TDAH costumam compensar suas dificuldades por meio do raciocínio rápido, conseguindo alcançar bons resultados acadêmicos e profissionais. No entanto, essa compensação exige um desgaste emocional intenso, frequentemente acompanhado por ansiedade, estresse e sensação constante de incapacidade.
O funcionamento do cérebro também contribui para esse cenário. Estudos apontam que indivíduos com TDAH apresentam alterações em redes neurais responsáveis pela atenção e pelas funções executivas, além de diferenças no sistema de recompensa relacionado à dopamina. Isso faz com que tarefas repetitivas ou pouco estimulantes pareçam extremamente difíceis de iniciar, enquanto atividades desafiadoras podem gerar episódios de hiperfoco.
Além das dificuldades cognitivas, o transtorno também afeta o aspecto emocional. Pessoas com TDAH podem apresentar forte autocrítica, perfeccionismo, medo de falhar e sensibilidade intensa à rejeição, fatores que aumentam o sofrimento psicológico e comprometem a qualidade de vida.
Especialistas ressaltam que procrastinação ocasional, pensamentos acelerados ou desorganização não significam, por si só, um diagnóstico de TDAH. A condição é caracterizada pela presença persistente desses sintomas desde a infância, causando prejuízos significativos na vida pessoal, acadêmica, profissional e social.
Por isso, a recomendação é que pessoas que se identificam com esse conjunto de dificuldades procurem avaliação com profissionais especializados. O diagnóstico correto permite acesso ao tratamento adequado, que pode incluir acompanhamento psicológico, orientação médica e estratégias para melhorar o funcionamento diário.
Embora a inteligência possa ajudar a contornar algumas limitações impostas pelo transtorno, ela não elimina os desafios do TDAH. Reconhecer os sinais e buscar ajuda especializada é um passo importante para reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida.